Por Rodrigo Chagas l Brasil de Fato – publicado em 5 de maio de 2026.
Um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que a terceirização se tornou dominante em parte dos maiores grupos do setor elétrico brasileiro. Em empresas analisadas pelo estudo, trabalhadores indiretos já representam mais de 80% da força de trabalho, enquanto balanços recentes das companhias registram receitas e lucros bilionários.
O retrato aparece na composição da força de trabalho de nove dos dez principais grupos econômicos do setor:
Cemig: 86,5% de trabalhadores indiretos;
EDP Brasil: 83%;
Enel: 80,6%;
Equatorial: 78,5%;
Neoenergia: 62,7%;
Light: 62,4%;
Copel: 60%;
Celesc: 49,9%;
Energisa: 28,2%;
Eletrobras: não informou dados sobre trabalhadores indiretos.
A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) lidera em terceirização. O dado coloca a estatal mineira à frente de grupos privados e expõe uma das contradições centrais do setor: mesmo em empresas públicas ou sob concessão pública, a operação passou a depender majoritariamente de trabalhadores contratados por outras empresas.
O retrato atual aprofunda uma tendência identificada pelo próprio Dieese há mais de uma década. Em estudo publicado em 2010, com dados de 2008, o departamento apontava que terceirizados já eram 55,5% da força de trabalho do setor elétrico. Nas empresas que informavam dados completos, a taxa chegava a 58,3%. O que naquele momento já era maioria hoje se aproxima de nove em cada dez trabalhadores em companhias centrais da geração, transmissão e distribuição de energia.
O avanço ocorre em empresas com resultados expressivos. Em 2025, a Enel Brasil registrou receita líquida de R$ 49,05 bilhões e lucro líquido de R$ 2,98 bilhões. A Cemig informou receita de R$ 42,75 bilhões e lucro de R$ 4,9 bilhões. A EDP Brasil, no dado mais recente divulgado, referente a 2024, teve receita de R$ 15,4 bilhões e lucro líquido de R$ 2,28 bilhões.
O motivo da aposta na terceirização começa a ser entendido com a análise dos salários dos trabalhadores do setor. Segundo o Dieese, no fim de 2025, o rendimento médio dos empregados do setor elétrico público era 84% maior do que o registrado no setor privado. Na prática, isso significa que os trabalhadores fora do setor público recebiam pouco mais da metade, em uma atividade que exige formação técnica, experiência acumulada e operação em ambientes de alto risco.
José Enrique de Freitas, eletricitário aposentado que trabalhou por 35 anos na Cemig, entrou na empresa em 1988, quando os quadros próprios ainda sustentavam boa parte da operação. Para ele, a terceirização avançou junto com uma lógica de retorno rápido aos acionistas.
“Você vai ver que o custo da mão de obra é muito pouco em relação ao lucro da empresa. Ter quadro próprio aumentaria a possibilidade de ter menos retrabalho, menos acidente. Mas, como terceirizou, tem acionista, e ele não tem compromisso com isso. Ele quer receber da forma mais rápida”, afirma em entrevista ao Brasil de Fato.
Para o Dieese e especialistas ouvidos pela reportagem, os dados ajudam a explicar uma mudança estrutural no setor elétrico: a terceirização ganhou força a partir das privatizações dos anos 1990 e passou a impactar salários, segurança, formação profissional e qualidade do serviço prestado à população.
Como a terceirização virou modelo no setor elétrico
Para Carlos Machado, economista e técnico responsável pela subseção do Dieese no Sindicato dos Eletricitários de Minas Gerais, o avanço da terceirização precisa ser lido a partir da reestruturação do setor elétrico nos anos 1990. Até aquele período, afirma, o setor era majoritariamente estatal. A distribuição de energia foi uma das áreas mais atingidas pelas privatizações de caráter neoliberal, e a mudança no controle das empresas veio acompanhada de uma alteração profunda na forma de contratar trabalhadores.
“Na esteira da privatização, veio a terceirização. Ao mesmo tempo em que as empresas foram sendo privatizadas, elas foram terceirizando partes importantes da sua atividade-fim”, afirma Machado. Segundo ele, a Lei de Concessões, de 1995, abriu caminho para que concessionárias transferissem a empresas contratadas atividades “inerentes” ao setor elétrico, antes mesmo da liberação geral da terceirização no país (com a reforma trabalhista, em 2017).
O ponto, diz o economista, é que a terceirização avançou justamente sobre uma atividade que exige formação, experiência e controle permanente de riscos. “Foi liberada a terceirização de uma atividade que talvez fosse a última que poderia ser liberada, dado o risco de morte. Deveria ter um cuidado maior, mas foi a primeira a ser liberada”, afirma.
A mudança não significou apenas a contratação de empresas externas para serviços pontuais. Paulo*, nome fictício de um executivo que trabalhou por mais de 30 anos no setor de distribuição de energia, lembra que a terceirização já existia antes das privatizações, mas sem substituir a estrutura própria das companhias.
“Já existia terceirização? Já. Mas a empresa mantinha em todos os seus serviços equipes próprias. Mesmo na construção, na manutenção, tinha equipes próprias. Com a privatização, aí é uma ruptura mesmo com o modelo que tinha antes de contratação. A terceirização passa a ser algo bem estimulado”, relata.
Cemig, o caso mais extremo do levantamento
A Cemig aparece no levantamento do Dieese com a maior proporção de trabalhadores indiretos entre os dez grupos analisados. A empresa foi criada em 1952, no governo de Juscelino Kubitschek, para estruturar a oferta de energia em Minas Gerais, e segue sob controle do governo estadual. Mesmo assim, tornou-se o exemplo mais agudo de uma lógica de terceirização que também atravessa companhias privadas.
José Enrique de Freitas diz que, quando ingressou na empresa, a Cemig operava com quadros próprios na distribuição, transmissão e geração. “Quando eu entrei, não havia essa discussão. Nós tínhamos terceirizados para alguns serviços de manutenção pesada, mas muito pouco. Inclusive as manutenções pesadas eram feitas pelo próprio quadro da Cemig”, afirma.
Segundo ele, a mudança começou a ganhar força nos anos 1990, com planos de desligamento, falta de reposição de trabalhadores e separação entre áreas da empresa. “A Cemig chegou a ter 18 mil trabalhadores próprios. Quando começa a ter plano de desligamento incentivado e não há reposição desses quadros, você tem mais um salto da terceirização. Aí vem a desverticalização, separa distribuição, transmissão e geração, e essa coisa aumenta mais”, diz.
No levantamento do Dieese, a Cemig aparece atualmente com 5.028 empregados diretos e 32.477 trabalhadores indiretos.
A situação atual da Cemig também se conecta à disputa sobre seu futuro. O governo de Minas Gerais mantém o controle da companhia por deter a maioria das ações ordinárias, mas a privatização voltou à agenda nos últimos anos, com tentativas malsucedidas do governo de Romeu Zema (Novo). Para trabalhadores da empresa, o avanço da terceirização mostra que parte da lógica privada já organiza a operação, mesmo antes de uma eventual mudança formal de controle.
Enel expõe o impacto do modelo na qualidade do serviço
A Enel controla a maior concessão de distribuição do país, em São Paulo, além de operações no Rio de Janeiro e no Ceará. O caso paulista tornou-se um dos principais exemplos da crise de atendimento no setor, com interrupções prolongadas de energia e questionamentos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) sobre a capacidade de resposta da companhia.
A trajetória da Enel em São Paulo passa pela antiga Eletropaulo, privatizada no fim dos anos 1990 e comprada pelo grupo italiano em 2018. Paulo* afirma que a mudança de controle aprofundou um processo já iniciado com a privatização. “A Eletropaulo Metropolitana, que é hoje Enel, tinha 10 mil funcionários no momento da privatização. Nos últimos anos, varia entre 4 mil e 6 mil funcionários próprios, o resto tudo terceirizado. A força de trabalho própria foi cortada e substituída em parte pela terceirização”, explica.
Para ele, a redução de quadros próprios afeta a capacidade de resposta da distribuidora porque o trabalho na rede depende também de experiência acumulada no território. “Não é só conhecimento teórico. Tem experiência, porque você vai mexer no sistema de energia numa distribuidora, tem um pouco do conhecimento que o cara tem da região também. Você precisa ter conhecimento teórico, mas precisa ter tempo de conhecimento, habilitação mesmo, para poder operar bem”, afirma.
A Enel anunciou uma política de “primarização” e a contratação de eletricistas próprios após a sequência de eventos climáticos extremos e críticas à demora no restabelecimento do serviço. Para trabalhadores e especialistas, a medida indica que a presença de equipes próprias segue decisiva justamente nas situações de crise, quando a operação depende de coordenação, conhecimento local e manutenção acumulada.
Salário menor sustenta o modelo
A perda de espaço do emprego público ajuda a explicar o tamanho da diferença salarial no setor. Segundo o Dieese, entre 2021 e 2025 foram criadas cerca de 10 mil vagas nas áreas de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, alta de 4,3%. O crescimento, porém, veio da iniciativa privada. No mesmo período, a participação dos trabalhadores do setor público, que em 2025 receberam 84% a mais do que o do setor privado, caiu de 17% para 10% do total.
“As empresas fizeram isso para aumentar o lucro. Onde tinha dez trabalhadores, colocaram cinco, três, para trabalhar com jornadas maiores, salários menores e sem a qualificação daquele trabalhador. Isso, além de precarizar a força de trabalho, fatalmente levaria a problemas como aumento de acidentes fatais e perda de qualidade do serviço”, argumenta Carlos Machado.
Na Cemig, José Enrique de Freitas relaciona esse movimento à forma como os contratos com prestadoras são organizados. Como a empresa ainda é estatal, as contratações passam por licitação. Na prática, segundo ele, a pressão pelo menor preço recai sobre quem executa o trabalho.
“A empresa consegue baixar o preço da mão de obra baixando o salário. Aí já não começa a ser atrativo para os trabalhadores. Os contratos vão sendo feitos pelo menor preço, e cada novo contrato ajusta mais o custo da mão de obra para baixo”, afirma.

O trabalho terceirizado na ponta
José Enrique relata que, em áreas de distribuição, os contratos preveem composições mínimas de trabalhadores para serviços de manutenção e atendimento. Segundo ele, porém, as prestadoras têm dificuldade para manter equipes completas, em parte pela baixa atratividade dos salários e pela rotatividade.
“É impossível encontrar uma equipe dotada com todos esses profissionais. Tem equipe trabalhando com menos gente. Aí é sobrecarga de trabalho, jornada muito extensa, trabalho mal dividido, e o trabalhador mais experiente acaba trabalhando demais”, relata.
A formação também mudou. “Quando eu entrei [em 1988], eram seis meses de treinamento. Depois ficou quatro. Hoje você entra e são 30 dias de integração. Não é formação. O estágio antes era de dois anos; hoje é de dois meses, acompanhado por alguém que entrou há três meses e também não teve formação”, analisa José Enrique.
O problema, segundo ele, não está apenas no tempo formal de treinamento, mas na perda de um modelo em que trabalhadores mais antigos transmitiam conhecimento dentro da própria empresa. Com a rotatividade nas prestadoras e a redução dos quadros próprios, parte dessa memória deixa de circular.
Terceirização também reduz memória operacional
A precarização não se limita ao trabalhador. No setor elétrico, de acordo com os entrevistados ouvidos pelo Brasil de Fato, a qualidade do serviço depende de manutenção contínua, equipes estáveis e conhecimento acumulado sobre o território. Em distribuidoras, cada região tem características próprias de rede, arborização, carga e histórico de falhas.
Segundo Paulo, a resposta a temporais e eventos extremos depende do trabalho feito antes. Quando a manutenção é adiada, a emergência cresce além da capacidade das equipes disponíveis. “Sistema de distribuição de energia tem que ter manutenção. Se você não der manutenção, ele pode aguentar um tempo, mas depois vai dar problema. Você nunca vai ter equipe suficiente para resolver tudo no dia da chuva se não fez o trabalho antes.”
Carlos Machado faz leitura semelhante. Para ele, uma empresa de energia não funciona apenas com trabalhadores terceirizados porque a operação exige coordenação permanente. “Se apertou o interruptor, a luz tem que chegar. Para isso acontecer, a energia gerada e transportada precisa estar coordenada ao mesmo tempo. É uma complexidade enorme”.
O economista do Dieese avalia que o modelo chegou perto do limite operacional. “Esse nível de terceirização está no limite. Se as empresas terceirizarem 100%, ou um percentual muito próximo disso, aí é o caos. Nas situações críticas, o trabalhador do quadro próprio é que segura as pontas.”
Para José Enrique, a energia elétrica deveria ser tratada como concessão pública estratégica, independentemente de a empresa ser estatal ou privada. Ele defende que poucas atividades poderiam ficar fora do quadro próprio.
“Eu não vejo [possibilidade de] equilíbrio. Pouquíssimas atividades poderiam ser terceirizadas. Uma empresa do setor elétrico, que é concessão pública, precisa garantir segurança do sistema, segurança do trabalhador e qualidade do serviço. Isso não combina com uma lógica voltada só para lucro imediato.”
Trabalhador invisível nas estatísticas
A terceirização também dificulta a contagem e a representação dos trabalhadores do setor. Carlos Machado explica que muitos eletricitários contratados por empresas prestadoras não aparecem nas bases públicas como trabalhadores do setor elétrico, mas em outras atividades econômicas, como construção civil ou serviços.
“Muitas vezes, são empresas da construção civil contratadas pelas concessionárias. O trabalhador atua no setor elétrico, mas é registrado com CNAE [Classificação Nacional de Atividades Econômicas] da construção civil. A gente não consegue nem saber de forma precisa quantos são os terceirizados no setor elétrico”, afirma.
José Enrique descreve o efeito dessa distorção na organização sindical. Segundo ele, trabalhadores que executam atividades típicas do setor passam a ser classificados de outra forma, o que limita a atuação dos sindicatos de eletricitários.
“O eletricista não chama eletricista, ele é instalador. De fato, ele tem a mesma atividade, mas é colocado de uma forma diferente. Quando chega numa instância de negociação, a empresa diz que não somos nós os representantes, e a gente não consegue fazer a representação legal desses trabalhadores.”
Para Carlos, esse deslocamento fragmenta a categoria e enfraquece a fiscalização feita pelos próprios trabalhadores. “A terceirização fragmenta a força de trabalho e enfraquece a organização coletiva. Os sindicatos têm um papel também de controle social, de fiscalizar, de fazer denúncia. Isso é importante não só para o trabalhador representado, é importante para a sociedade.”
O estudo do Dieese publicado em 2010 já apontava uma relação entre terceirização e maior risco de morte no setor elétrico. Com base em dados de 2008, o departamento calculou taxa de mortalidade de 47,5 mortes por 100 mil trabalhadores entre terceirizados, contra 14,8 entre empregados próprios. Naquele ano, o risco entre terceirizados era mais de três vezes superior.
Hoje, segundo Carlos, não há transparência suficiente para acompanhar a evolução desse quadro. Ele afirma que os dados existem nas empresas e na agência reguladora, mas não são disponibilizados de forma pública e sistemática.
“Hoje a gente tem um apagão de dados totalmente injustificável. A Aneel e as empresas têm os dados, mas a sociedade não tem. Os dados lá de trás permitem dizer que a situação entre os terceirizados, em relação a acidentes fatais, era muito pior, mas hoje a gente não tem nem dado para continuar acompanhando”, afirma.
José Enrique diz que a subnotificação é uma preocupação recorrente entre trabalhadores. “Nós chegamos a ter uma morte a cada 45 dias. Depois disso muda porque passa-se a subnotificar, a esconder acidentes. Tem acidente que nós nem ficamos sabendo”, relata.
Para Paulo*, a pressão por velocidade no atendimento aumenta o risco em uma atividade que exige procedimento, isolamento da rede, equipamento adequado e experiência. “Chega para o cara e fala: ‘Você tem que sair rapidinho porque tem outro atendimento’. Se o cara aceita essa pressão, começa uma contagem para o acidente. Isso é fatal.”