Reportagem da revista CartaCapital revela o balanço de quatro anos da privatização da maior empresa de energia da América Latina: promessas de investimentos bilionários contrastam com demissões em massa e aumentos abusivos na direção da empresa.
Por Ascom Salve a Energia
Os alertas emitidos por movimentos sindicais e eletricitários antes da privatização da Eletrobras deixaram de ser apenas previsões e se tornaram a realidade do setor elétrico brasileiro. Em reportagem publicada pela revista CartaCapital, que analisa os desdobramentos dos quatro anos desde a entrega do controle acionário da companhia ao capital privado, o cenário atual é marcado por uma forte contradição: enquanto a população lida com tarifas de energia cada vez mais altas e trabalhadores enfrentam cortes e demissões, a alta cúpula da empresa desfruta de rendimentos milionários.
Historicamente combatida pelos eletricitários que anteviam a precarização do sistema, a privatização foi realizada em meio a promessas de eficiência e expansão. Defensores da desestatização asseguravam, à época, que o processo traria um aporte de R$ 14 bilhões anuais em investimentos na compra e modernização da estrutura. No acumulado de quatro anos, a projeção indicava uma injeção de R$ 56 bilhões na economia do setor. No entanto, os dados práticos revelam uma realidade diferente, onde os investimentos prometidos não se materializaram da forma anunciada e o ônus foi transferido diretamente para as contas de luz pagas pelo consumidor final.
Apagamento do passado estatal
De acordo com as informações repercutidas pela CartaCapital, uma das estratégias da nova gestão para consolidar a transição foi o rebranding institucional da marca, uma tentativa nítida de apagar o histórico estatal da empresa. Contudo, a mudança de nome não esconde o impacto dessa transição para o País.
Em contrapartida ao discurso de austeridade e à necessidade de cortes impostos aos trabalhadores — que resultaram em programas de demissão em massa, ampliação das terceirizações, sucessivas tentativas de redução salarial e aumento dos acidentes de trabalho, inclusive fatais, em níveis que não eram registrados no período em que a empresa era estatal —, a gestão privada adotou um padrão de remuneração e benefícios milionários para seus próprios dirigentes.
Conforme aponta a publicação, os salários da diretoria e dos membros do conselho da companhia saltaram para patamares astronômicos logo após a saída do controle do Estado. Remunerações de presidentes e conselheiros, que antes seguiam tetos públicos e critérios de modicidade, sofreram reajustes exponenciais, gerando distorções profundas e concentrando os lucros gerados pela operação nas mãos de acionistas e da alta gerência.
Para os sindicatos que integram a campanha Salve a Energia, o balanço desses quatro anos reafirma que a energia elétrica não pode ser tratada como mera mercadoria voltada à especulação financeira. O enfraquecimento do papel do Estado na modicidade tarifária retirou o caráter social de um serviço essencial, penalizando o orçamento das famílias mais vulneráveis.
Enquanto os relatórios financeiros da ex-Eletrobras celebram a priorização de dividendos e bônus para a direção, a sociedade brasileira arca com as consequências de um modelo que prometeu desenvolvimento, mas rendeu demissões, precarização do trabalho e uma das tarifas de energia mais caras do mundo.
*Com informações da reportagem original publicada pela CartaCapital em 14 de junho de 2026.