Por Paulo Gala l Publicado em 3 de junho de 2025.
Ao contrário da crença comum de que apenas países em desenvolvimento mantêm empresas estatais em grande escala, as nações ricas também possuem uma presença significativa do Estado em setores considerados estratégicos. Ainda que muitas dessas economias tenham promovido ondas de privatizações nas últimas décadas, a atuação estatal persiste de forma relevante — especialmente em áreas como energia, transporte, infraestrutura, comunicação e finanças públicas.
Nos Estados Unidos, uma economia notoriamente liberal, o governo federal mantém empresas públicas com funções específicas e de grande impacto. Entre as mais relevantes estão a Fannie Mae e a Freddie Mac, que sustentam o mercado hipotecário americano; a Tennessee Valley Authority, responsável pela geração e distribuição de energia elétrica no sudeste do país; a Amtrak, que presta serviços de transporte ferroviário intermunicipal; e o USPS, o sistema nacional de correios, vital para a logística norte-americana.
Na Europa continental, a presença estatal é mais visível. A França tem estatais altamente estratégicas, como a EDF, gigante do setor elétrico, totalmente sob controle estatal, e a SNCF, operadora do sistema ferroviário nacional. Outras empresas, como a La Poste (correios), a RATP (transporte urbano de Paris) e a Orano (energia nuclear), mostram como o Estado francês mantém protagonismo em infraestrutura, mobilidade urbana e tecnologia energética.
Na Alemanha, o papel do Estado se destaca no financiamento e transporte. A Deutsche Bahn, estatal de ferrovias, e o banco de fomento KfW, são peças-chave da infraestrutura econômica alemã. Ainda há presença significativa em empresas de energia, como a EnBW, e de transporte urbano, como a BVG em Berlim. Mesmo em setores parcialmente privatizados, como os correios (Deutsche Post), o Estado mantém participação via instituições como o KfW.
No Japão, a herança estatal segue forte em setores essenciais. A Japan Post Holdings reúne serviços de correio, seguros e finanças com controle estatal. Outras instituições, como a JRTT (ferrovias), a operadora do Aeroporto de Narita, o Tokyo Metro e a JOGMEC (exploração de recursos naturais), demonstram que o Estado japonês continua investindo em infraestrutura crítica e segurança energética.
O Reino Unido, mesmo após décadas de privatizações, ainda preserva empresas públicas de grande importância, como a BBC, principal emissora pública do país; a Network Rail, responsável pela infraestrutura ferroviária; e o sistema público de saúde, o NHS, referência mundial de atendimento universal gratuito. Além disso, o governo mantém o controle de ativos por meio da UK Government Investments.
Na Itália, o Estado continua a ser acionista relevante de empresas estratégicas como a ENI (energia e petróleo), Enel (eletricidade), Ferrovie dello Stato (ferrovias), Leonardo (defesa e tecnologia) e RAI (radiodifusão). Essas empresas cumprem funções vitais para a economia e a soberania nacional.
Portanto, mesmo nas economias mais desenvolvidas e liberalizadas, o Estado ainda ocupa posição central em setores onde o interesse público, a segurança nacional e os investimentos de longo prazo justificam sua presença. O modelo pode variar entre propriedade total, participação acionária ou controle indireto por bancos de fomento, mas o padrão se repete: os países ricos mantêm estatais fortes onde elas são mais necessárias.